Um quasar é um dos objetos mais luminosos conhecidos no Universo. Apesar de aparecer como um pequeno ponto de luz quando observado a enormes distâncias, ele corresponde ao núcleo extremamente ativo de uma galáxia, alimentado por matéria que cai em direção a um buraco negro supermassivo. Em casos extremos, essa região central consegue emitir centenas ou milhares de vezes mais luz do que a própria galáxia que a abriga.
A energia não vem diretamente do interior do buraco negro. Ela é produzida principalmente pela matéria que gira ao redor dele antes de atravessar o horizonte de eventos. Gás e poeira são comprimidos, acelerados e aquecidos a temperaturas altíssimas, formando um ambiente capaz de emitir desde ondas de rádio até raios X.
Em julho de 2026, a Agência Espacial Europeia divulgou resultados do telescópio espacial Euclid envolvendo 31 dos quasars mais antigos já identificados. Dois deles existiam quando o Universo tinha apenas cerca de 670 milhões de anos, mostrando que buracos negros gigantescos já estavam crescendo em uma época surpreendentemente próxima do início da história cósmica.
O que é um quasar e de onde vem tanta energia
O nome surgiu a partir da expressão inglesa quasi-stellar radio source, algo como “fonte de rádio quase estelar”. Quando os primeiros exemplares foram identificados, eles pareciam estrelas distantes nos telescópios disponíveis na época. O problema é que seus espectros e sua enorme quantidade de energia não combinavam com nenhuma estrela conhecida.
Hoje sabemos que um quasar é um tipo extremamente luminoso de núcleo galáctico ativo, também chamado de AGN. No centro dessa estrutura existe um buraco negro cuja massa pode chegar a milhões ou bilhões de vezes a massa do Sol.
O verdadeiro espetáculo acontece ao redor dele.
O disco de acreção funciona como uma usina cósmica
Quando gás, poeira ou até material arrancado de estrelas se aproxima do buraco negro, essa matéria normalmente não cai diretamente para dentro. Ela começa a orbitar o objeto e forma um disco de acreção.
As diferentes regiões desse disco se movimentam em velocidades enormes. Interações entre o material convertem parte da energia gravitacional em calor e radiação. As regiões mais internas podem alcançar temperaturas de milhões de graus, produzindo uma quantidade extraordinária de energia antes mesmo de a matéria desaparecer no buraco negro.
Isso explica um aparente paradoxo: embora um buraco negro não permita que a luz escape depois do horizonte de eventos, seus arredores podem estar entre os lugares mais brilhantes de todo o Universo.
Alguns também disparam jatos gigantescos
Determinados núcleos ativos produzem ainda jatos relativísticos, feixes estreitos de partículas lançados para longe da região central em velocidades próximas à da luz. Campos magnéticos intensos próximos ao disco e ao buraco negro desempenham um papel fundamental na formação dessas estruturas.
Esses jatos podem alcançar distâncias muito maiores do que a própria galáxia e transportar enormes quantidades de energia para o espaço ao redor.
| Estrutura | Papel no quasar |
|---|---|
| Buraco negro supermassivo | Produz o campo gravitacional que atrai a matéria. |
| Disco de acreção | Aquece e libera grande quantidade de radiação. |
| Campos magnéticos | Influenciam o fluxo do material próximo ao núcleo. |
| Jatos relativísticos | Transportam partículas e energia por grandes distâncias. |
Um pequeno núcleo pode ofuscar bilhões de estrelas
O tamanho da região responsável pela maior parte da luminosidade ajuda a mostrar como os quasars são extremos. Uma área relativamente compacta no centro da galáxia pode produzir luminosidade superior à de bilhões de estrelas combinadas.
A NASA descreve quasars capazes de apresentar luminosidades dezenas, centenas ou até milhares de vezes superiores à da Via Láctea, dependendo do objeto observado. Existem casos ainda mais extremos dentro da população conhecida.
Essa diferença também dificulta a observação da galáxia hospedeira. Imagine tentar enxergar uma lâmpada fraca posicionada ao lado de um holofote extremamente poderoso. Para instrumentos astronômicos, separar a luz das estrelas daquela produzida pelo núcleo ativo exige técnicas e telescópios muito sensíveis.
O Hubble, o James Webb, o Euclid e observatórios de raios X e rádio permitem analisar diferentes partes dessa emissão e reconstruir o ambiente ao redor do buraco negro.
Quasars ajudam a investigar o Universo muito jovem
Existe outra característica que transforma esses objetos em ferramentas importantes para a astronomia: muitos estão extremamente distantes. Como a luz possui velocidade finita, observar regiões distantes significa enxergar acontecimentos ocorridos bilhões de anos atrás.
Quando um telescópio detecta um quasar cuja luz levou mais de 12 bilhões de anos para chegar até nós, ele está observando aquele objeto como era quando o Universo ainda era muito jovem.
Os quasars permitem estudar questões como:
- A formação das primeiras grandes galáxias;
- O crescimento dos primeiros buracos negros supermassivos;
- A distribuição de matéria no Universo antigo;
- A evolução química do gás entre as galáxias;
- A influência dos núcleos ativos sobre a formação de estrelas.
Um dos problemas mais intrigantes envolve justamente a velocidade desse crescimento. Encontrar buracos negros gigantescos algumas centenas de milhões de anos após o Big Bang significa que eles precisaram acumular massa muito rapidamente.
As descobertas do Euclid aumentaram esse mistério
Os resultados apresentados pela ESA em 2026 reforçaram a questão. O Euclid identificou dezenas de quasars extremamente antigos, incluindo dois vistos em uma época na qual o Universo possuía aproximadamente 5% de sua idade atual.
Segundo os dados divulgados pela agência, esses objetos já apresentavam luminosidade equivalente à de cerca de um trilhão de sóis. Isso indica que mecanismos eficientes de alimentação dos primeiros buracos negros já estavam funcionando em uma fase inicial da evolução das galáxias.
A descoberta não significa necessariamente que os modelos atuais estejam errados. Ela aumenta, porém, a quantidade de dados disponíveis para testar diferentes hipóteses sobre como surgiram as primeiras sementes de buracos negros supermassivos e quanto material elas conseguiam consumir.
O quasar também pode transformar sua própria galáxia
Toda essa energia não permanece confinada à vizinhança do buraco negro. Ventos, radiação e jatos podem interagir com enormes nuvens de gás espalhadas pela galáxia hospedeira.
Essa interação é conhecida como feedback de núcleo galáctico ativo. Dependendo das condições, ela pode aquecer ou expulsar o gás que serviria de matéria-prima para a formação de novas estrelas. Em outros cenários, choques provocados pela atividade central podem comprimir regiões gasosas.
Por isso, estudar um quasar também significa investigar a evolução das próprias galáxias. O crescimento do buraco negro central e o desenvolvimento da galáxia ao redor parecem estar conectados por processos que os astrônomos ainda tentam compreender em detalhes.
A Via Láctea poderia virar algo parecido?
No centro da nossa galáxia existe Sagittarius A*, um buraco negro supermassivo com cerca de quatro milhões de massas solares. Atualmente, porém, ele consome relativamente pouco material e apresenta atividade muito inferior à observada nos grandes quasars.
Isso não significa que tenha sido sempre assim. Evidências indicam que o centro da Via Láctea passou por períodos de atividade mais intensa no passado.
Para que nossa galáxia apresentasse um núcleo extremamente ativo, seria necessário fornecer grandes quantidades de gás e matéria ao buraco negro central durante determinado período. Interações entre galáxias, por exemplo, podem alterar a distribuição do gás e aumentar a alimentação dos buracos negros centrais.
Quasars, portanto, não representam necessariamente uma categoria permanente de galáxia. Eles podem corresponder a uma fase extremamente energética de sua evolução, enquanto o buraco negro central recebe grandes quantidades de matéria.
À medida que observatórios como Euclid, James Webb e futuros telescópios terrestres ampliam a busca por esses objetos cada vez mais distantes, a quantidade de quasars conhecidos no Universo primordial tende a crescer. Cada nova detecção ajuda a estabelecer quando os primeiros buracos negros gigantes apareceram e, principalmente, como conseguiram crescer tão rapidamente.