Além de Netuno existe uma região muito mais estranha do que parece

Netuno está longe de marcar o fim do Sistema Solar. Depois dele surgem Plutão, o Cinturão de Kuiper, o disco disperso, Sedna e uma gigantesca região que pode chegar até a Nuvem de Oort.

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Quando pensamos no Sistema Solar, Netuno costuma aparecer como uma espécie de fronteira final. É o oitavo planeta, orbita o Sol a cerca de 4,5 bilhões de quilômetros e, nos diagramas escolares, geralmente surge perto da borda da imagem. Só que o Sistema Solar não termina ali. Além de Netuno existe uma imensa população de mundos congelados, planetas anões, cometas e pequenos corpos que ocupam regiões tão distantes que algumas delas ainda são pouco conhecidas.

Na verdade, os quatro planetas rochosos e os quatro gigantes representam apenas uma parte da estrutura do nosso sistema planetário. Depois da órbita de Netuno começa um território onde a luz solar é extremamente fraca, as temperaturas despencam e uma única volta ao redor do Sol pode levar centenas ou milhares de anos.

Além de Netuno começa o Cinturão de Kuiper

A primeira grande região encontrada depois de Netuno é o Cinturão de Kuiper, uma vasta concentração de corpos congelados localizada aproximadamente entre 30 e 50 unidades astronômicas do Sol. Uma unidade astronômica, ou UA, corresponde aproximadamente à distância média entre a Terra e o Sol.

Isso significa que muitos objetos do Cinturão de Kuiper estão dezenas de vezes mais distantes do Sol do que nós. Eles são restos da formação do Sistema Solar, materiais que nunca chegaram a se juntar para formar um planeta de grande porte.

O membro mais famoso dessa população é Plutão. Durante décadas ele foi considerado o nono planeta, mas atualmente é classificado como planeta anão. E Plutão está longe de ser o único corpo interessante da região.

Entre os objetos conhecidos além de Netuno estão:

  • Plutão, com sua grande lua Caronte e outras luas menores;
  • Haumea, um planeta anão extremamente alongado e com rotação muito rápida;
  • Makemake, outro grande corpo congelado do Cinturão de Kuiper;
  • Quaoar, um objeto transnetuniano acompanhado por um sistema de anéis;
  • Milhares de outros pequenos corpos compostos principalmente por gelo e rocha.

O Cinturão de Kuiper funciona quase como um arquivo arqueológico do Sistema Solar. Como muitos desses objetos permaneceram relativamente preservados desde os primeiros estágios da formação planetária, estudá-los ajuda os astrônomos a reconstruir o ambiente existente há cerca de 4,6 bilhões de anos.

Plutão está longe de ser o fim

Plutão
Plutão – NASA / Unsplash

A órbita de Plutão já demonstra como essa parte do Sistema Solar pode ser diferente. Enquanto os grandes planetas possuem órbitas relativamente organizadas, muitos objetos transnetunianos percorrem trajetórias bastante inclinadas ou alongadas.

A própria órbita de Plutão varia aproximadamente entre 30 e 49 unidades astronômicas do Sol. Por isso, em determinados momentos de sua trajetória, ele pode estar mais próximo do Sol do que Netuno.

Mas existem corpos cuja órbita leva muito mais longe.

O disco disperso

Depois da parte principal do Cinturão de Kuiper surge uma população conhecida como disco disperso. Seus objetos possuem órbitas muito mais excêntricas, provavelmente influenciadas pela gravidade dos planetas gigantes durante os primeiros estágios do Sistema Solar.

Éris é um dos exemplos mais conhecidos. O planeta anão pode se afastar do Sol por quase 100 unidades astronômicas, ficando várias vezes mais distante que Netuno.

Alguns objetos dessa região também são considerados importantes fontes de cometas que eventualmente se aproximam da região interna do Sistema Solar.

Sedna leva o conceito de distância a outro nível

Entre os mundos conhecidos nas regiões externas, Sedna ocupa uma posição particularmente curiosa. Sua órbita é extremamente alongada e permanece muito distante do Sol até mesmo em seu ponto de maior aproximação.

Sedna pode passar de 900 unidades astronômicas do Sol durante sua trajetória. Para completar uma única órbita, precisa de aproximadamente 11 mil anos.

Isso significa que a última vez em que Sedna esteve em uma posição orbital semelhante à atual, a humanidade ainda vivia uma realidade completamente diferente na Terra.

Sua órbita também levanta uma questão importante. A influência gravitacional de Netuno parece insuficiente para explicar completamente como Sedna terminou nessa trajetória.

Diversas hipóteses foram propostas, incluindo encontros gravitacionais com outras estrelas durante a juventude do Sistema Solar ou interações com objetos massivos ainda desconhecidos.

Existe um planeta escondido depois de Netuno?

Uma das hipóteses mais intrigantes da astronomia moderna envolve a possível existência de um grande planeta ainda não observado diretamente nas regiões externas do Sistema Solar.

A ideia ficou conhecida como Planeta Nove.

A hipótese surgiu principalmente porque alguns objetos transnetunianos extremamente distantes apresentam características orbitais que poderiam ser explicadas pela influência gravitacional de um planeta massivo localizado muito além de Netuno.

Esse mundo hipotético poderia possuir várias vezes a massa da Terra e levar milhares de anos para completar sua órbita.

Por enquanto, porém, é importante separar hipótese de descoberta: nenhum Planeta Nove foi confirmado diretamente. Explicações alternativas para a distribuição orbital desses pequenos corpos continuam sendo estudadas.

Encontrá-lo também seria extremamente difícil. Um planeta localizado a centenas de unidades astronômicas receberia pouca luz do Sol e refletiria uma quantidade ainda menor em direção à Terra.

Muito depois vem a Nuvem de Oort

Se o Cinturão de Kuiper já parece distante, a escala muda completamente quando chegamos à Nuvem de Oort.

Ela é uma região hipotética formada por uma quantidade gigantesca de pequenos objetos congelados distribuídos ao redor do Sistema Solar. Diferentemente do Cinturão de Kuiper, que lembra mais um disco, a Nuvem de Oort provavelmente possui uma estrutura aproximadamente esférica.

As estimativas de sua extensão variam bastante, mas sua região externa pode alcançar dezenas de milhares de unidades astronômicas.

Nesse ponto, o domínio gravitacional do Sol começa a encontrar a influência gravitacional de outras estrelas e da própria Via Láctea.

É também dessa região extremamente distante que provavelmente surgem muitos cometas de longo período. Perturbações gravitacionais podem alterar a trajetória desses corpos congelados e lançá-los em direção às regiões internas do Sistema Solar.

A fronteira do Sistema Solar não é uma linha

Determinar exatamente onde o Sistema Solar termina depende do que estamos chamando de fronteira.

Se considerarmos os planetas, Netuno é o último conhecido. Se considerarmos os grandes reservatórios de pequenos corpos, precisamos incluir o Cinturão de Kuiper, o disco disperso e provavelmente a Nuvem de Oort.

Existe ainda a heliosfera, a enorme bolha produzida pelo vento solar. Ela possui uma fronteira chamada heliopausa, onde a influência desse fluxo de partículas do Sol encontra o meio interestelar.

As sondas Voyager 1 e Voyager 2 atravessaram essa região e entraram no espaço interestelar. Isso não significa, porém, que tenham deixado completamente o Sistema Solar no sentido gravitacional.

Mesmo viajando pelo meio interestelar, elas continuam muitíssimo mais próximas do Sol do que as regiões externas estimadas da Nuvem de Oort.

Depois disso começa o espaço entre as estrelas

Quando finalmente ultrapassamos as regiões onde a gravidade solar consegue manter objetos em órbita por bilhões de anos, entramos efetivamente no domínio interestelar.

A estrela mais próxima do Sol, Proxima Centauri, está localizada a aproximadamente 4,24 anos-luz de distância. Mesmo a gigantesca escala da Nuvem de Oort representa apenas uma fração dessa separação.

Isso cria um cenário curioso: entre o território dominado pelo Sol e os sistemas planetários das estrelas vizinhas existe uma quantidade gigantesca de espaço aparentemente vazio, preenchido por gás extremamente rarefeito, poeira, campos magnéticos, raios cósmicos e possivelmente objetos errantes.

O que existe além de Netuno, portanto, não é simplesmente um vazio depois do último planeta. Existe uma sucessão de regiões cada vez mais remotas, começando com mundos congelados relativamente próximos e terminando em estruturas que podem se estender por uma parte significativa da distância até as estrelas vizinhas.

Quanto mais longe observamos, menor fica nossa certeza sobre a população desses lugares. É justamente nessa fronteira que podem estar alguns dos objetos ainda desconhecidos do Sistema Solar, incluindo pequenos mundos congelados e, caso algumas hipóteses estejam corretas, até mesmo um planeta massivo que ainda não conseguimos enxergar.

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