A entropia pode revelar por que o Universo caminha em uma única direção

A entropia ajuda a explicar a evolução do Universo, a direção do tempo, os buracos negros e até o possível destino final do cosmos.

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A entropia no universo ajuda a explicar uma das características mais estranhas da realidade: por que o passado e o futuro parecem tão diferentes. Estrelas queimam combustível, objetos esfriam, galáxias evoluem e buracos negros crescem, mas esses processos não costumam ocorrer espontaneamente ao contrário. Por trás dessa assimetria está uma das leis mais importantes da física, a segunda lei da termodinâmica, segundo a qual a entropia de um sistema isolado tende a aumentar.

Embora seja frequentemente apresentada como uma medida de “desordem”, a entropia possui um significado mais preciso. Ela está relacionada ao número de configurações microscópicas capazes de produzir determinado estado macroscópico. Quanto maior o número de maneiras pelas quais matéria e energia podem se distribuir sem alterar aquilo que observamos em grande escala, maior é a entropia daquele estado.

Quando esse princípio é aplicado ao cosmos inteiro, surge uma ligação fascinante entre termodinâmica, gravidade, buracos negros e até o possível destino do Universo.

O que a entropia no Universo realmente mede

Imagine uma caixa dividida ao meio contendo moléculas de gás concentradas apenas em um dos lados. Se a divisória for removida, as partículas rapidamente ocuparão todo o recipiente. Nada nas leis fundamentais impede que todas elas retornem espontaneamente para um único lado, mas existem incomparavelmente mais configurações possíveis com o gás espalhado.

Por isso, o estado distribuído é estatisticamente muito mais provável.

A entropia descreve justamente essa diferença. Um sistema de baixa entropia possui relativamente poucas configurações microscópicas compatíveis com seu estado observado. Um sistema de alta entropia pode ser organizado microscopicamente de uma quantidade muito maior de maneiras.

No cotidiano, isso aparece constantemente:

  • Um objeto quente transfere energia para um ambiente frio;
  • Um perfume se espalha pelo cômodo depois de aberto;
  • Dois gases misturados não costumam se separar espontaneamente;
  • Uma estrela transforma combustível nuclear em radiação e elementos mais pesados;
  • Energia concentrada tende a ser redistribuída entre diferentes componentes de um sistema.

A energia não desaparece nesses processos. O que muda é sua capacidade de produzir transformações úteis.

O jovem Universo criou um dos maiores enigmas da cosmologia

À primeira vista, existe um aparente problema. O Universo primordial era extremamente quente e denso, características que poderiam sugerir um estado caótico. Mesmo assim, do ponto de vista gravitacional, ele possuía uma entropia extraordinariamente baixa.

A razão está na distribuição da matéria.

Nos primeiros estágios conhecidos do cosmos, matéria e radiação estavam espalhadas de maneira muito homogênea. Para sistemas dominados pela gravidade, porém, uma distribuição uniforme não corresponde ao estado de maior entropia. A gravidade favorece a formação de estruturas concentradas, capazes de gerar estrelas, galáxias e, em situações extremas, buracos negros.

Pequenas diferenças de densidade presentes no Universo jovem cresceram ao longo de bilhões de anos. Regiões ligeiramente mais densas atraíram mais matéria, formando enormes redes cósmicas, aglomerados de galáxias e estrelas.

Assim, paradoxalmente, a formação de estruturas aparentemente organizadas pode acompanhar o aumento da entropia cósmica.

Gravidade muda nossa intuição sobre ordem

Esse comportamento mostra por que simplesmente associar entropia a bagunça pode ser enganoso.

Se partículas comuns estiverem dentro de uma caixa sem influência gravitacional significativa, espalhá-las geralmente aumenta a entropia. Em escalas astronômicas, entretanto, a gravidade permite que matéria inicialmente distribuída se concentre e libere grandes quantidades de energia durante esse processo.

Uma nuvem molecular pode colapsar até formar uma estrela. Parte da energia gravitacional é convertida em calor e radiação, que se espalham pelo espaço. A estrela formada parece extremamente organizada, mas o processo completo pode produzir um aumento líquido da entropia.

Buracos negros são verdadeiros gigantes da entropia

Poucos objetos ilustram melhor essa conexão entre gravidade e termodinâmica do que os buracos negros.

Na década de 1970, trabalhos de Jacob Bekenstein e Stephen Hawking estabeleceram uma relação profunda entre a área do horizonte de eventos de um buraco negro e sua entropia. Essa descoberta mostrou que esses objetos não são apenas soluções gravitacionais da relatividade geral. Eles também possuem propriedades termodinâmicas.

A entropia associada a um buraco negro cresce proporcionalmente à área de seu horizonte de eventos, e não simplesmente ao volume que imaginamos existir dentro dele.

Essa relação se tornou uma das pistas mais importantes para tentativas de reconciliar gravidade, termodinâmica e mecânica quântica.

Buracos negros supermassivos encontrados no centro das galáxias podem armazenar quantidades enormes de entropia. Conforme matéria cai nesses objetos ou dois buracos negros se fundem, a situação precisa continuar compatível com uma versão generalizada da segunda lei da termodinâmica.

Ao mesmo tempo, a física de Hawking indica que buracos negros possuem temperatura e podem emitir radiação extremamente lentamente.

Entropia também está ligada à direção do tempo

As equações fundamentais de grande parte da física não distinguem claramente passado e futuro. Se fosse possível assistir a determinadas interações entre partículas em um vídeo reproduzido ao contrário, as leis microscópicas ainda poderiam parecer perfeitamente válidas.

Nossa experiência cotidiana é diferente.

Uma taça pode cair e se quebrar, mas seus fragmentos não voltam espontaneamente para a mesa e remontam o objeto. O café quente esfria em contato com o ambiente, mas normalmente não absorve energia térmica dispersa até começar a ferver sozinho.

Essa diferença é chamada de seta termodinâmica do tempo.

O sentido em que percebemos o tempo avançar corresponde ao sentido no qual a entropia aumenta. Por isso, compreender por que o Universo começou em um estado de entropia tão baixa também pode ajudar a entender por que existe uma direção temporal tão definida.

O mistério, portanto, não está apenas no fato de a entropia crescer. Uma questão ainda mais profunda é saber por que as condições iniciais do cosmos permitiam que ela tivesse tanto espaço para crescer.

A expansão muda o futuro termodinâmico do cosmos

O Universo está em expansão desde suas primeiras fases conhecidas. Enquanto ele cresce, a matéria se torna progressivamente mais dispersa em escalas muito grandes e a radiação perde energia por causa da expansão do espaço.

Hoje, estrelas ainda conseguem transformar elementos leves por fusão nuclear e liberar energia. Galáxias continuam interagindo, novas estrelas ainda podem surgir em determinadas regiões e buracos negros absorvem matéria.

Essas fontes de energia utilizável, porém, não são eternas.

Em escalas de tempo imensamente maiores que a atual idade do Universo, estrelas deixarão de se formar quando o gás disponível for consumido ou se tornar inacessível. Objetos compactos permanecerão por períodos muito maiores, enquanto buracos negros podem dominar importantes etapas da evolução cósmica.

Se a expansão acelerada continuar indefinidamente em um cenário semelhante ao atualmente usado pelo modelo cosmológico padrão, regiões distantes também poderão ficar cada vez mais isoladas umas das outras.

A morte térmica seria o limite extremo da entropia

Um dos possíveis destinos associados à segunda lei da termodinâmica é conhecido como morte térmica do Universo.

O nome pode causar confusão. Ele não significa necessariamente que todo o cosmos ficaria extremamente quente. Na prática, descreve um estado no qual diferenças capazes de produzir trabalho útil se tornariam extremamente pequenas.

Sem grandes gradientes de temperatura ou fontes acessíveis de energia livre, os processos físicos capazes de sustentar estruturas complexas se tornariam cada vez mais raros.

Em um cenário muito distante:

  • A formação de novas estrelas praticamente cessaria;
  • Estrelas existentes terminariam seus ciclos evolutivos;
  • Restariam objetos como anãs brancas, estrelas de nêutrons e buracos negros;
  • Em escalas ainda mais extremas, buracos negros poderiam perder massa pela radiação Hawking;
  • Matéria e radiação ficariam cada vez mais diluídas conforme o espaço continuasse se expandindo.

Esse futuro depende da maneira como a expansão cósmica evoluirá e das propriedades reais da energia escura. Modelos alternativos podem produzir destinos diferentes, portanto a morte térmica não deve ser tratada como uma previsão absolutamente estabelecida.

O Universo ainda está muito longe do equilíbrio

Apesar do aumento contínuo da entropia, o cosmos atual está longe de um estado termodinâmico completamente uniforme. Existem estrelas com milhões de graus em seus interiores, enormes regiões quase vazias, planetas frios, nuvens moleculares, supernovas, galáxias ativas e buracos negros com massas equivalentes a milhões ou bilhões de sóis.

Essas diferenças tornam possíveis inúmeras transformações.

A própria vida depende de sistemas fora do equilíbrio. A Terra recebe energia relativamente concentrada do Sol e devolve energia ao espaço principalmente na forma de radiação infravermelha. Essa diferença permite que processos físicos, químicos e biológicos ocorram sem violar a segunda lei.

A existência de estruturas complexas, portanto, não contradiz o crescimento da entropia. Sistemas localizados podem se tornar mais organizados desde que produzam um aumento suficiente de entropia em seus arredores.

Uma lei da física conecta estrelas, tempo e o destino do cosmos

A entropia começou como um conceito desenvolvido para compreender máquinas térmicas, calor e transformações de energia. Hoje, ela atravessa algumas das questões mais profundas da astronomia moderna.

Ela ajuda a compreender por que estrelas irradiam energia, como estruturas gravitacionais evoluem, por que buracos negros possuem propriedades termodinâmicas e por que distinguimos tão claramente passado e futuro.

Ao levar a segunda lei da termodinâmica para escalas cosmológicas, surge uma consequência impressionante: o Universo não está apenas mudando. Existem direções estatisticamente favorecidas para essa mudança.

Descobrir por que o cosmos começou com uma entropia gravitacional tão baixa continua sendo parte do problema. A resposta pode exigir uma compreensão mais profunda das condições iniciais do Universo e de como gravidade e física quântica se relacionam, duas peças que ainda não formam uma teoria completa.

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