Como oceanos de areia surgem no meio dos desertos

Os desertos de areia surgem de uma longa combinação entre erosão, sedimentos disponíveis e ventos capazes de transportar e acumular grãos até formar enormes campos de dunas.

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Quando pensamos em um deserto, a primeira imagem costuma ser a de um horizonte tomado por dunas. Mas os desertos de areia são resultado de uma combinação muito específica de clima seco, disponibilidade de sedimentos, erosão e ventos capazes de transportar milhões de grãos durante longos períodos. A aridez, sozinha, não produz dunas. É preciso primeiro criar a areia, transportá-la e, finalmente, encontrar condições que permitam sua acumulação.

Na realidade, grande parte das regiões desérticas do planeta apresenta superfícies rochosas, cascalho e planícies praticamente sem areia. Os enormes campos de dunas, conhecidos como ergs, aparecem apenas onde a geologia e a circulação atmosférica conseguem manter um verdadeiro sistema de produção e redistribuição de sedimentos.

A areia de um deserto precisa vir de algum lugar

O processo começa muito antes de uma duna existir. Rochas expostas durante milhares ou milhões de anos são lentamente fragmentadas pela ação da água, mudanças de temperatura, vento e outros processos de intemperismo e erosão. Rios também podem transportar sedimentos de regiões montanhosas para grandes bacias, onde esse material permanece acumulado.

Quando lagos e rios de regiões áridas diminuem ou desaparecem devido a mudanças climáticas, antigos depósitos sedimentares podem ficar expostos. O vento passa então a encontrar enormes quantidades de partículas soltas disponíveis para transporte. Esse mecanismo participa da formação de alguns campos de dunas atuais.

Nem todo fragmento, entretanto, consegue viajar da mesma maneira. Partículas muito grandes são pesadas demais para serem carregadas com facilidade, enquanto partículas extremamente pequenas podem permanecer suspensas e viajar enormes distâncias como poeira. Os grãos de areia ocupam uma faixa intermediária especialmente favorável ao transporte próximo da superfície.

Boa parte da areia encontrada em grandes sistemas desérticos contém bastante quartzo, mineral resistente à alteração química e ao desgaste mecânico. Depois de sucessivos ciclos de erosão, transporte e deposição, materiais menos resistentes podem desaparecer enquanto os grãos mais duráveis permanecem.

Como os desertos de areia começam a ganhar dunas

Com sedimentos disponíveis e pouca vegetação protegendo o solo, o vento consegue colocar os grãos em movimento. Uma das formas mais importantes desse transporte é a saltação. Nesse processo, os grãos dão pequenos saltos sobre a superfície, atingem outros grãos e ajudam a colocar novas partículas em movimento.

Grãos maiores também podem avançar lentamente por rolamento ou creep, enquanto partículas menores conseguem permanecer suspensas. Assim, uma tempestade de areia não precisa carregar todo o material pelo céu. Uma quantidade enorme de sedimentos pode estar se deslocando muito perto do chão.

O nascimento de uma duna ocorre quando esse transporte perde eficiência. Uma irregularidade no terreno, uma mudança na velocidade do vento, uma rocha ou uma grande acumulação anterior pode fazer alguns grãos permanecerem naquele local. Conforme outros chegam, o obstáculo cresce e passa a capturar ainda mais areia. As dunas são justamente acumulações de sedimentos produzidas pela ação do vento nos desertos.

O processo básico pode ser resumido em uma sequência:

  • Produção: Rochas e antigos depósitos são fragmentados ou expostos;
  • Disponibilização: O clima seco deixa sedimentos soltos acessíveis ao vento;
  • Transporte: Ventos movimentam os grãos pela superfície;
  • Deposição: A perda de energia permite que parte da areia se acumule;
  • Migração: Novos ventos continuam removendo e depositando grãos, deslocando gradualmente as dunas.

Uma duna, portanto, não é simplesmente um monte de areia imóvel. Ela é uma estrutura dinâmica, continuamente remodelada pelo transporte de sedimentos.

O vento determina a aparência do oceano de areia

A direção e a regularidade dos ventos ajudam a definir a geometria das dunas nos desertos. Em locais onde predomina uma única direção, podem surgir formas bastante diferentes daquelas encontradas em regiões submetidas a ventos vindos de vários sentidos. A quantidade de areia disponível e a própria topografia também modificam essas estruturas.

Em determinadas condições aparecem dunas em forma de crescente, chamadas de barcanas. Outros ambientes favorecem dunas lineares, transversais ou estruturas muito mais complexas. Quando ventos importantes chegam de várias direções, podem se formar as chamadas dunas estrela, que apresentam braços orientados para diferentes lados.

Essas formas também podem migrar. O vento empurra partículas pela encosta mais suave da duna até que elas ultrapassem sua parte superior e se depositem no lado protegido. Repetido incontáveis vezes, esse mecanismo faz a estrutura inteira avançar lentamente pela paisagem.

Por que nem todo deserto é coberto por areia

A existência de um clima extremamente seco não garante a formação de um mar de dunas. Para isso, é necessário haver sedimento suficiente, vento adequado e uma região onde esse material possa permanecer concentrado. Se praticamente não existe areia disponível, o vento não tem matéria-prima para construir grandes campos de dunas.

Por isso, muitos desertos possuem extensas superfícies pedregosas. O próprio vento pode contribuir para essa aparência ao remover partículas menores de determinadas áreas e deixar para trás fragmentos maiores, formando superfícies conhecidas como pavimentos desérticos.

Também existem regiões com dunas impressionantes que não pertencem aos desertos quentes imaginados pelo senso comum. Sistemas de dunas podem aparecer próximos a praias, lagos, planícies e até regiões frias, desde que exista areia disponível e vento suficiente para movimentá-la. A formação das dunas está relacionada ao transporte e à deposição de sedimentos, não exclusivamente às altas temperaturas.

É justamente essa combinação que transforma determinadas partes de um ambiente árido em enormes paisagens onduladas. Os desertos de areia não surgem porque o solo simplesmente “vira areia”. Cada campo de dunas registra uma história de rochas desgastadas, sedimentos transportados, antigos rios ou lagos, mudanças climáticas e ventos que continuam reorganizando a superfície mesmo depois de milhares de anos.

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