A OpenAI, empresa responsável pelo ChatGPT, iniciou discussões para conceder uma participação de 5% ao governo dos Estados Unidos em uma proposta considerada inédita para o setor de inteligência artificial. A informação foi publicada nesta quinta-feira (2) pelo Financial Times e repercutida por diversos veículos internacionais.
Segundo pessoas familiarizadas com as negociações, a iniciativa faz parte de uma estratégia para aproximar a empresa da administração do presidente Donald Trump, em um momento em que Washington amplia sua influência sobre o desenvolvimento das tecnologias de IA e discute formas de fazer a população participar dos ganhos econômicos gerados pelo setor.
Ainda não existe qualquer acordo firmado, e as conversas permanecem em estágio inicial.
A ideia vai além da OpenAI
De acordo com o Financial Times, a proposta não envolveria apenas a OpenAI. O plano prevê que outras gigantes americanas da inteligência artificial também possam destinar uma participação semelhante ao governo dos Estados Unidos.
Entre as empresas citadas estariam Anthropic, Google e Meta, embora não exista confirmação de que essas companhias tenham interesse em aderir ao modelo.
A intenção seria criar uma espécie de patrimônio público ligado ao crescimento da inteligência artificial, permitindo que parte da valorização dessas empresas beneficie diretamente o país e, futuramente, a população americana.
Inspiração vem de um fundo criado no Alasca
A proposta teria como inspiração o Alaska Permanent Fund, fundo soberano criado para administrar parte da riqueza obtida com a exploração de petróleo no estado americano.
Nesse modelo, os recursos são investidos e parte dos rendimentos retorna periodicamente aos moradores do Alasca.
O CEO da OpenAI, Sam Altman, já havia defendido anteriormente mecanismos semelhantes para distribuir de forma mais ampla os benefícios econômicos produzidos pela inteligência artificial, argumentando que a tecnologia poderá gerar enorme concentração de riqueza caso seus ganhos permaneçam restritos às grandes empresas do setor.
Pressão política sobre a IA cresce nos Estados Unidos
A discussão acontece em um momento de forte aumento da pressão política sobre as empresas de inteligência artificial.
Nos últimos meses, o governo americano intensificou debates sobre segurança nacional, impacto da IA no mercado de trabalho, riscos econômicos e competitividade internacional, especialmente diante do avanço de modelos desenvolvidos na China.
Além disso, autoridades vêm discutindo maneiras de garantir que a população também participe financeiramente do crescimento bilionário da indústria de IA, e não apenas investidores privados e fundos de capital de risco.
Quanto valeria uma fatia de 5%?
Embora a participação ainda seja apenas uma proposta, os números ajudam a dimensionar sua relevância.
A OpenAI foi avaliada recentemente em aproximadamente US$ 852 bilhões durante sua rodada mais recente de investimentos.
Caso esse valor seja utilizado como referência, uma participação de 5% corresponderia a cerca de US$ 42,6 bilhões, tornando-se uma das maiores participações governamentais já discutidas em uma empresa privada de tecnologia.
Um patrimônio dessa magnitude colocaria o governo americano na posição de um dos principais beneficiários do crescimento futuro da OpenAI, caso a participação fosse efetivamente concedida. Se a empresa continuar ampliando seu valor de mercado nos próximos anos, essa fatia também se valorizaria, podendo gerar bilhões de dólares em retorno por meio de dividendos, venda de ações ou outros mecanismos que venham a ser definidos em um eventual acordo.
Nada está decidido
Apesar da repercussão internacional, não há confirmação de que o governo Trump aceitará a proposta nem de que ela será efetivamente implementada.
Especialistas apontam que uma operação dessa natureza poderia exigir aprovação do Congresso americano, além de enfrentar discussões jurídicas e regulatórias complexas.
Nem a OpenAI nem a Casa Branca comentaram oficialmente o conteúdo das negociações até o momento.
O simples fato de uma empresa líder em inteligência artificial cogitar entregar parte de sua participação ao governo, porém, já evidencia como a IA deixou de ser apenas uma disputa tecnológica para se tornar também uma questão estratégica, econômica e política para os Estados Unidos.