O permafrost da Antártida permanece escondido sob algumas das regiões mais extremas do planeta, mas novas medições indicam que até esse solo permanentemente congelado está respondendo às mudanças do clima. Um estudo publicado em agosto de 2026, baseado em locais de monitoramento distribuídos pelo planeta, encontrou aumento significativo da camada que descongela durante o verão em 38% dos pontos analisados na região antártica entre 2000 e 2024.
A descoberta chama atenção para uma parte da Antártida muito menos conhecida do que suas enormes geleiras. O permafrost não é simplesmente gelo acumulado sobre a superfície. Trata-se de solo, rocha ou sedimento que permanece a 0 °C ou menos durante pelo menos dois anos consecutivos. Durante o verão, uma camada superficial pode descongelar temporariamente e voltar a congelar quando as temperaturas caem.
O permafrost da Antártida não fica sob toda aquela camada de gelo
A maior parte da Antártida está coberta pelo manto de gelo continental, por isso o permafrost normalmente estudado pelos cientistas aparece principalmente nas áreas de terreno exposto, incluindo regiões costeiras, montanhas, vales secos e ilhas próximas ao continente.
Essas áreas são pequenas quando comparadas ao tamanho total da Antártida. Um levantamento continental estimou que os terrenos livres de gelo correspondem a aproximadamente 0,22% do continente, cerca de 30.900 km². Mesmo assim, o permafrost está presente em praticamente todas essas regiões, com exceções principalmente nas áreas mais baixas e relativamente quentes da Antártida Marítima e de algumas ilhas subantárticas.
Entre os locais mais conhecidos estão os Vales Secos de McMurdo, partes das Montanhas Transantárticas, a Península Antártica e diferentes trechos costeiros onde rochas e solos ficam expostos durante todo ou parte do ano.
Existe uma camada que descongela todos os anos
Mesmo onde existe permafrost, os centímetros ou metros mais próximos da superfície podem descongelar durante os meses mais quentes. Essa região recebe o nome de camada ativa.
Ela funciona como uma espécie de fronteira entre o ambiente superficial e o terreno que permanece congelado. Quanto mais calor chega ao solo, maior pode se tornar essa camada. Por isso, sua espessura é uma das medidas usadas pelos pesquisadores para acompanhar alterações no permafrost.
Em Rothera Point, na Ilha Adelaide, por exemplo, medições encontraram uma camada ativa variando aproximadamente entre 0,76 e 1,40 metro, enquanto estimativas indicaram permafrost com mais de uma centena de metros de espessura naquele local.
O solo antártico pode estar extremamente abaixo de zero
A palavra “permafrost” pode transmitir a impressão de que todas essas regiões apresentam temperaturas semelhantes. Na prática, existem diferenças enormes.
Um mapeamento publicado em The Cryosphere estimou temperaturas próximas da superfície do permafrost em áreas montanhosas frequentemente entre -23 °C e -18 °C, enquanto regiões costeiras ficaram principalmente entre -14 °C e -8 °C. Na Península Antártica, algumas das áreas mais quentes podem apresentar temperaturas do solo muito mais próximas de 0 °C.
No outro extremo está o interior montanhoso. O mesmo levantamento calculou cerca de -36 °C no Monte Markham, nas Montanhas Transantárticas, um dos valores mais baixos já modelados para permafrost próximo da superfície terrestre.
Essa diferença é importante porque um solo congelado a -20 °C precisa receber muito mais energia para alcançar condições de degelo do que outro que já permanece durante longos períodos próximo de -1 °C.
Por que o aumento da camada ativa preocupa os pesquisadores
Quando a temperatura do terreno aumenta, mudanças aparentemente pequenas podem alterar profundamente o ambiente local. O degelo pode modificar a circulação de água, a estabilidade do solo e processos de erosão e congelamento.
Entre os efeitos acompanhados pelos pesquisadores estão:
- Alterações na profundidade da camada ativa;
- Mudanças na drenagem e na quantidade de água disponível no solo;
- Instabilidade de sedimentos e encostas;
- Transformações nos pequenos ecossistemas terrestres antárticos;
- Danos potenciais a estruturas científicas construídas sobre terrenos congelados.
O comportamento também depende de fatores locais. Cobertura de neve, altitude, exposição ao Sol, vento e presença de vegetação podem alterar consideravelmente a quantidade de calor que chega ao terreno. Estudos na Antártida Marítima mostram, por exemplo, que diferentes tipos de vegetação conseguem modificar a temperatura da superfície e a espessura da camada ativa.
O problema é diferente daquele observado no Ártico
Grande parte das discussões sobre permafrost está relacionada ao Ártico, onde existem enormes extensões de solos congelados ricos em matéria orgânica. Quando esses terrenos descongelam, microrganismos podem decompor carbono anteriormente preservado e liberar dióxido de carbono e metano para