Um iceberg pode parecer apenas um enorme bloco de gelo flutuando no oceano, mas aquilo que aparece acima da água representa somente uma pequena parte de sua estrutura. A maior porção permanece submersa, escondida da visão, enquanto essas massas congeladas podem viajar por centenas ou até milhares de quilômetros antes de derreter completamente. Algumas chegam a dimensões comparáveis às de cidades inteiras e carregam consigo água doce congelada durante milhares de anos.
A origem dessas estruturas está diretamente ligada às grandes geleiras e plataformas de gelo das regiões polares. Quando partes delas se desprendem e passam a flutuar livremente no mar, nasce um iceberg. A partir desse momento, correntes oceânicas, ventos, temperatura da água e condições atmosféricas começam a determinar o caminho e o tempo de sobrevivência daquele bloco de gelo.
Como um iceberg se forma
Icebergs surgem principalmente por um processo chamado desprendimento glacial, conhecido em inglês como calving. Ele ocorre quando uma extremidade de uma geleira ou plataforma de gelo avança sobre o oceano e acaba se rompendo.
Esse desprendimento faz parte do comportamento natural das geleiras. A neve acumulada durante anos é comprimida progressivamente até se transformar em gelo denso. Sob o peso das camadas superiores e pela ação da gravidade, a massa congelada começa a se movimentar lentamente em direção a regiões mais baixas.
Quando alcança o mar, grandes rachaduras podem se desenvolver. Eventualmente, uma dessas fissuras atravessa uma porção suficientemente grande da estrutura e libera um bloco na água.
Entre as principais regiões produtoras de icebergs estão:
- Antártida, responsável por alguns dos maiores blocos já observados;
- Groenlândia, importante fonte de icebergs no Atlântico Norte;
- Ilhas e arquipélagos do Ártico canadense;
- Regiões glaciais menores próximas ao oceano.
Depois de separado, o gelo passa a se comportar como uma enorme embarcação natural, influenciada pelo ambiente ao redor.
Por que quase todo o iceberg fica debaixo da água
A explicação está na diferença de densidade entre o gelo e a água líquida. O gelo é menos denso e, por isso, flutua. Entretanto, essa diferença é relativamente pequena.
A densidade do gelo de água doce fica em torno de 917 kg por metro cúbico, enquanto a água do mar apresenta aproximadamente 1.025 kg por metro cúbico, com variações causadas pela temperatura e salinidade.
Como resultado, normalmente apenas cerca de 10% da massa de um iceberg fica visível acima da superfície. O restante permanece sob a água.
Esse valor não é absolutamente fixo. Formato, densidade do gelo, presença de bolhas de ar e características da água podem alterar a proporção. Ainda assim, a imagem popular de uma pequena parte visível escondendo uma estrutura gigantesca abaixo da superfície possui uma base física real.
A forma escondida pode ser completamente diferente
A parte submersa também não precisa acompanhar exatamente o formato observado acima da água. Um iceberg aparentemente estreito na superfície pode apresentar extensões laterais muito maiores abaixo dela.
Esse comportamento contribui para o perigo representado por essas estruturas para embarcações. A distância visual até o gelo exposto não necessariamente revela onde termina a massa congelada submersa.
Icebergs podem alcançar dimensões gigantescas
Não existe um único formato característico. Alguns apresentam aparência irregular e fragmentada, enquanto outros formam enormes superfícies praticamente planas.
Os chamados icebergs tabulares surgem principalmente quando grandes pedaços de plataformas de gelo se desprendem. Eles podem apresentar paredes quase verticais e superfícies extensas, semelhantes a gigantescas mesas congeladas sobre o oceano.
A escala pode ser difícil de perceber apenas por fotografias. Grandes icebergs podem atingir:
| Característica | Possível escala |
|---|---|
| Comprimento | De poucos metros a centenas de quilômetros |
| Altura visível | De alguns metros a dezenas de metros |
| Parte submersa | Aproximadamente 90% da massa |
| Massa | De toneladas a bilhões de toneladas |
Objetos menores também são produzidos durante a fragmentação. Conforme ondas e temperaturas mais elevadas desgastam as estruturas, blocos se quebram sucessivamente até que o gelo desapareça.
Um iceberg não fica parado no mesmo lugar
Depois do desprendimento, começa uma viagem determinada principalmente pelas correntes oceânicas. O vento também exerce influência sobre a parte exposta, mas a enorme área submersa faz com que as correntes tenham papel fundamental na trajetória.
No Atlântico Norte, por exemplo, icebergs provenientes da Groenlândia podem ser transportados em direção a águas mais ao sul. Durante o caminho, enfrentam temperaturas progressivamente maiores e começam a perder massa.
O processo não acontece apenas porque o ar aquece o gelo. A água do oceano transfere calor continuamente para a estrutura submersa, acelerando a erosão.
Ondas também atingem repetidamente a região próxima à linha d’água, criando cavidades e alterando o equilíbrio da massa.
Em determinado momento, o formato pode ficar tão instável que o iceberg gira dentro da água.
Quando toneladas de gelo simplesmente viram
Um dos fenômenos mais impressionantes relacionados aos icebergs é justamente o tombamento. Como apenas uma parte da estrutura está visível, mudanças ocorridas abaixo da superfície podem deslocar o centro de massa.
Quando o equilíbrio deixa de ser sustentável, o bloco inteiro pode girar rapidamente.
Esse movimento envolve uma quantidade enorme de energia e desloca grandes volumes de água. Por esse motivo, aproximar embarcações excessivamente de grandes icebergs pode ser perigoso mesmo quando o mar parece tranquilo.
A fragmentação também é imprevisível. Uma parede aparentemente estável pode se romper e lançar toneladas de gelo na água em poucos segundos.
O gelo do iceberg é doce mesmo estando no oceano
Embora permaneçam cercados por água salgada, os icebergs são formados principalmente por água doce. Isso acontece porque sua origem está na neve acumulada sobre continentes e ilhas.
Durante centenas ou milhares de anos, essa neve passa por compactação até se transformar em gelo glacial. O material somente entra em contato diretamente com o oceano depois que alcança a costa ou se desprende.
Isso também significa que o derretimento de gelo que já está flutuando possui um comportamento diferente do derretimento de geleiras localizadas sobre terra firme.
Pelo princípio de Arquimedes, um iceberg flutuante já desloca aproximadamente o volume de água correspondente ao seu peso. Seu derretimento, isoladamente, produz impacto muito pequeno sobre o nível do mar. Já o gelo continental adiciona água que antes estava armazenada sobre a terra e pode contribuir diretamente para a elevação dos oceanos.
Icebergs continuam sendo monitorados por segurança
O naufrágio do Titanic, em 1912, transformou os icebergs em um dos riscos marítimos mais conhecidos do mundo. A colisão mostrou como a combinação entre baixa visibilidade, velocidade e enormes massas submersas poderia produzir consequências catastróficas.
Hoje, satélites, aeronaves, radares e sistemas de observação marítima ajudam a identificar e acompanhar grandes blocos em regiões de navegação.
O monitoramento também interessa à ciência. A trajetória e o derretimento dessas estruturas fornecem informações sobre correntes marítimas, interação entre oceano e atmosfera e dinâmica das grandes massas de gelo polar.
Icebergs ainda transportam partículas minerais e nutrientes aprisionados durante sua formação. Conforme derretem, parte desse material é liberada na água, podendo influenciar ecossistemas marinhos ao redor.
O desaparecimento pode levar anos
Um iceberg começa a mudar praticamente desde o momento em que se desprende. Fissuras aumentam, bordas são desgastadas e partes menores se quebram continuamente.
A velocidade desse processo depende principalmente da localização. Em águas polares muito frias, grandes blocos podem permanecer por anos. Quando alcançam regiões mais quentes, a perda de massa acelera drasticamente.
No estágio final, aquilo que começou como uma estrutura com milhões ou bilhões de toneladas se transforma em fragmentos cada vez menores, até desaparecer no oceano.
A vida de um iceberg, portanto, não termina quando ele se desprende da geleira. É justamente nesse momento que começa uma trajetória capaz de atravessar grandes distâncias, alterar o ambiente ao redor e revelar apenas uma fração do gigantesco volume de gelo escondido sob a superfície.