A Antártida é muito mais estranha e importante do que parece

Sob quilômetros de gelo, a Antártida esconde montanhas, vulcões e enormes reservas de água doce enquanto influencia oceanos, clima e nível do mar em todo o planeta.

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A Antártida costuma ser imaginada como uma enorme planície branca no extremo sul do planeta, praticamente vazia e dominada por temperaturas impossíveis. A realidade é bem mais interessante. Sob quilômetros de gelo existe um continente completo, com cadeias de montanhas, vulcões, vales, lagos escondidos e um relevo que permanece invisível em quase toda a sua extensão. Mais do que uma paisagem congelada, essa massa continental exerce influência direta sobre os oceanos, o clima e até o nível do mar no restante do planeta.

Com aproximadamente 14 milhões de quilômetros quadrados, a região é maior que a Europa e está quase completamente coberta por gelo. Apenas uma fração muito pequena de sua superfície permanece livre de neve ou cobertura glacial. Em determinados pontos, a camada de gelo se aproxima de 5 quilômetros de espessura, escondendo um mundo que cientistas ainda tentam mapear com radares, satélites e outros instrumentos.

A Antártida não é apenas um bloco de gelo

Existe uma diferença fundamental entre a Antártida e o Ártico. O Ártico é principalmente um oceano cercado por continentes, coberto parcialmente por gelo marinho. A Antártida é exatamente o contrário: trata-se de um continente rochoso cercado pelo Oceano Austral e coberto por uma gigantesca camada de gelo.

Debaixo dessa cobertura há montanhas, depressões profundas e regiões cujo solo se encontra abaixo do nível do mar. As Montanhas Transantárticas atravessam grande parte do continente e ajudam a separar geograficamente a Antártida Oriental da Antártida Ocidental. A diferença não é apenas cartográfica, porque as duas regiões apresentam características distintas e respondem de maneiras diferentes às mudanças ambientais.

Em alguns lugares, somente os picos das montanhas conseguem atravessar a superfície congelada. Essas formações rochosas expostas são conhecidas como nunataks. O continente também possui vulcões, incluindo estruturas ainda ativas, provando que existe uma geologia dinâmica escondida sob uma paisagem aparentemente imóvel.

Existe tanta água congelada que o planeta depende dela

A camada de gelo antártica é a maior massa individual de gelo da Terra. Ela armazena uma parcela gigantesca da água doce existente no planeta e funciona como uma espécie de reservatório congelado, impedindo que toda essa água faça parte dos oceanos.

É justamente por isso que mudanças nessa região recebem tanta atenção científica. O derretimento do gelo que está sobre o continente adiciona água aos oceanos e contribui para a elevação do nível do mar. Dados de satélites mostram que a Antártida vem perdendo massa de gelo ao longo das últimas décadas.

Se toda a camada de gelo antártica desaparecesse, um cenário extremo que não ocorreria de uma vez, o nível médio global dos oceanos poderia subir aproximadamente 58 metros. O número ajuda a demonstrar a quantidade extraordinária de água armazenada sobre o continente.

Gelo continental e gelo marinho não são a mesma coisa

Essa distinção é importante. O gelo continental se forma sobre terra firme a partir do acúmulo e compactação de neve. Quando ele derrete e chega ao oceano, aumenta a quantidade de água disponível no sistema.

Já o gelo marinho surge quando a própria superfície do oceano congela. Como essa água já fazia parte do mar, seu derretimento não provoca diretamente o mesmo efeito sobre o nível dos oceanos. Mesmo assim, mudanças na cobertura de gelo marinho podem interferir na quantidade de luz solar refletida, nos ecossistemas e na circulação atmosférica e oceânica.

O maior deserto da Terra é coberto de neve

Parece contraditório, mas a Antártida também pode ser classificada como um deserto. A definição não depende da temperatura ou da existência de areia, mas principalmente da quantidade de precipitação.

O interior do continente recebe pouquíssima neve ao longo do ano. Em determinadas regiões, a precipitação equivalente em água é extremamente baixa. A neve que permanece no solo pode se acumular lentamente durante períodos enormes, sendo comprimida até formar camadas cada vez mais densas de gelo.

O resultado é um lugar capaz de reunir características extremas ao mesmo tempo:

  • É o continente mais frio da Terra;
  • Possui a maior altitude média entre os continentes;
  • Está entre as regiões mais secas do planeta;
  • Apresenta alguns dos ventos mais intensos registrados;
  • Abriga a maior massa de gelo existente atualmente na superfície terrestre.

A menor temperatura medida diretamente em uma estação meteorológica na superfície terrestre foi registrada na estação russa Vostok, na Antártida, chegando a -89,2 °C.

O gelo guarda uma espécie de arquivo da atmosfera

Uma das maiores contribuições científicas da Antártida está literalmente presa dentro do gelo. Quando a neve se acumula e é comprimida, pequenas bolhas de ar podem ficar aprisionadas entre as camadas.

Ao perfurar o gelo e retirar longos cilindros conhecidos como testemunhos de gelo, pesquisadores conseguem estudar essas bolhas. Elas preservam amostras de atmosferas antigas, permitindo comparar concentrações de gases e outras características ambientais de períodos muito anteriores ao surgimento da instrumentação meteorológica moderna.

O gelo também registra partículas transportadas pelo vento, poeira, cinzas vulcânicas e diferentes assinaturas químicas. Cada camada acrescenta informações a um enorme arquivo natural utilizado para reconstruir parte da história climática terrestre.

Existe vida em um ambiente que parece impossível

O interior da Antártida oferece condições extremamente difíceis para animais e plantas, mas as águas ao redor do continente sustentam ecossistemas muito mais ricos. Pinguins, focas, baleias, aves marinhas e diversos organismos encontram alimento no Oceano Austral.

Uma das bases dessa cadeia alimentar é o krill antártico, pequeno crustáceo que pode formar concentrações gigantescas. Apesar do tamanho reduzido de cada indivíduo, sua abundância permite alimentar desde aves e peixes até algumas das maiores baleias do planeta.

Na parte terrestre, a vegetação é muito mais limitada. Musgos, líquens e outros organismos adaptados ao frio conseguem sobreviver em áreas específicas onde rochas e solo permanecem expostos.

Por que a Antártida importa para quem vive tão longe dela

A distância do continente pode dar a impressão de que aquilo que acontece no extremo sul permanece isolado. Não é assim. A Antártida participa de sistemas oceânicos e atmosféricos que conectam diferentes regiões do planeta.

O Oceano Austral circunda completamente o continente, e suas águas interagem com correntes responsáveis pelo transporte de calor, nutrientes e carbono. Água extremamente fria e densa formada nas proximidades da Antártida também participa da circulação profunda dos oceanos.

O próprio gelo interfere no balanço energético terrestre ao refletir grande quantidade da radiação solar. Mudanças na cobertura de gelo, na temperatura do oceano e no comportamento das geleiras podem, portanto, gerar consequências que ultrapassam muito as fronteiras da região polar.

É por isso que cientistas mantêm estações de pesquisa em um ambiente tão difícil. Investigar a Antártida significa observar uma das partes mais sensíveis do sistema terrestre e, ao mesmo tempo, acessar registros preservados de seu passado. Sob aquela imensidão branca existe um continente inteiro que ainda guarda regiões pouco conhecidas, enquanto as transformações observadas em seu gelo ajudam pesquisadores a compreender o que pode acontecer com os oceanos e o clima nas próximas décadas.

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